A história da região do Bexiga revela a existência de uma ampla área, articulada à cidade, que servia como lugar de caça, de abrigo de escravos fugidos, e pessoas portadoras da varíola (bexiga). Também nesta região havia, pelo menos desde o início do século XIX, um importante pouso de tropeiros e passava um caminho que ligava a capital a Santos. A partir de 1878 o loteamento transformará a região que bairro que abrigará, sobretudo, imigrantes originários do sul da Itália.

O bairro foi constituído entre final do século XIX até os anos 1920. Os dados extraídos das séries documentais do Arquivo Aguirra e AMWL permitem observar estrangeiros participando ativamente do parcelamento de glebas em lotes e promovendo a construção de edificações, ou ainda acentuando o retalhamento do lote adquirido. Alguns imigrantes assumiram um papel ativo na constituição da área urbanizada do bairro, cujas características materiais de ocupação indicam um perfil de moradores médios, com certa qualificação e autonomia. O bairro abriga uma multiplicidade de práticas artesanais, pequenas oficinas e fábricas e não se caracteriza nem como bairro operário nem como bairro burguês. Os lotes de frentes estreitas e fundos alongados serão facilitadores da consolidação de edificações de uso misto e formas coletivas de morar. A associação entre moradia, trabalho e lazer é freqüente. A documentação revela um bairro onde múltiplas formas do morar estão presentes: cortiços com casinhas em série ocupando os fundos dos longos lotes, porões habitados, casas isoladas ocupando o mesmo lote, sobrados individuais com requintes burgueses, casas com armazéns e lojas na frente, casas com oficinas nos fundos, casas com cocheiras. Enfim uma pluralidade de arranjos que revelam a coexistência de diversos extratos sociais e para os quais a habitação coletiva é regra.

 

Sobre os mapas

 

Para a construção dos mapas foi utilizada a base Sarah Brasil 1930, primeiro levantamento aero-fotogámétrico de São Paulo.

Foram levantadas as informações disponíveis nos Arquivo Aguirra e Arquivo Municipal Washington Luis sobre 11 ruas integrantes do loteamento original. Foram também pesquisados Inventários e Processos judiciais junto ao Arquivo do Judiciário e Arquivo Público do Estado.

 

No Arquivo Aguirra foram compiladas a totalidade da série das fichas cartoriais, e partes das referências ao bairro nos livros-tombo. As fichas trazem compilações das documentações dos 1º e 3º Tabeliães de Registro de Imóveis, dos Cartórios de Ofício Civil, dos antigos Cartórios de Ofícios de Órfãos e referências à documentação fundiária em outros tipos de documentação, como o Diário Oficial do Estado de São Paulo, jornais e periódicos paulistas; e em menor medida cartas, relatos, testamentos, remetendo ainda a documentação do período colonial. Informam sobre mudanças de posse e transações comerciais (Registros de Compra e Venda; Registros de Hipoteca; Editais de Execução; Editais de Praça; Inventários; Permutas e Doações; Outras transações envolvendo alterações no registro de posse); valor da terra; loteamentos, mudanças do perfil/dimensão do lote (fragmentações, partições e agrupamentos de terrenos); ocupação e padrões; data do surgimento da construção; confrontações e panorama de uma “vizinhança”; abertura e alargamento de ruas, intervenções urbanas; descrições das configurações ambientais e de paisagem (Internas: Descrição de construções e cômodos, e externas: Pertinentes à geografia e hidrografia do terreno e do bairro). Foram localizadas e tabeladas 900 fichas cartoriais.

No AMWL foram levantadas as informações para 11 ruas, indicadas no mapa. Os dados levantados foram catalogados, correspondendo cada requerimento a uma ficha, totalizando 1862 fichas. As fichas informam as datas do requerimento, endereço do imóvel, nome do proprietário e/ou construtor, função do imóvel, tipo de requerimento, indicação se o mesmo foi aprovado ou não, bem como croquis das plantas e fachadas das edificações. Quando apareceram, também foram anotados o nome do arquiteto responsável, vizinhos de lote e dimensões do mesmo. As fichas foram organizadas por endereço, em ordem crescente de numeração, e foram localizados os lotes e edificações. Foram localizados 220 imóveis nos lotes configurados até 1930. Para alguns dos imóveis foram identificados mais de um requerimento, correspondendo a um mesmo endereço em momentos distintos, o que foi possível identificar graças às tabelas de mudança de numeração disponibilizadas pelo AHMWL. Essa diferença de numeração ao longo do período estudado inviabilizou a localização de muitos dos requerimentos pesquisados.

Ao passar o mouse sobre os terrenos com identificação é possível acessar a ficha de identificação do lote e imagens da situação atual.

Bexiga São Paulo, 1930



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