BEXIGA

Mariana Todorov

Renato B. Cristofi


Um dos maiores desafios para o entendimento do processo de formação dos bairros de São Paulo, em sua configuração espacial urbana, é a compreensão do processo de transformação fundiária da terra “rural” - oriunda do loteamento das antigas chácaras que circundavam o núcleo fundador da capital - para a configuração em lote urbano, de cuja forma urbana muito ainda permanece nos dias atuais, mesmo tendo em vista as sucessivas mudanças e intervenções ocorridas na cidade de São Paulo.

Tal compreensão do processo de configuração do lote urbano é importante não apenas por possibilitar o entendimento do momento da conformação de determinado bairro, mas por também dar subsídios sobre os elementos que caracterizam a vivência econômica e social do conjunto, permitindo o entendimento de suas especificidades, bem como suas diversidades, singularidades e convivências que marcam a vida urbana do bairro em estudo.

A base documental que analisada em forma seriada nos possibilitou no trabalho de pesquisa a ampliação do leque de análise e de questões sobre o entendimento da formação fundiária, demonstrando as características e diversidades do bairro foi o acervo documental denominado Arquivo Aguirra. Esse acervo, organizado por João Baptista de Campos Aguirra (1871-1962) trata-se de coleção de fichas, mapas, cadastros, livros-tombo, entre outras fontes cartoriais, que integram um dos fundos do Serviço de Documentação Textual e Iconográfica do Museu Paulista da Universidade de São Paulo.

Para o levantamento documental do Bairro do Bexiga, a partir dos objetivos do estudo, escolheu-se dentro do espectro de fontes do Fundo Aguirra, trabalhar-se com a totalidade da série das fichas cartoriais, e partes das referências ao bairro nos livros-tombo. As fichas tratam compilações das documentações dos 1º e 3º Tabeliães de Registro de Imóveis, dos Cartórios de Ofício Civil, dos antigos Cartórios de Ofícios de Órfãos e referências à documentação fundiária em outros tipos de documentação, como o Diário Oficial do Estado de São Paulo, jornais e periódicos paulistas; e em menor medida cartas, relatos, testamentos, remetendo ainda a documentação do período colonial. Todavia é a documentação cartorial e paroquial a grande monta das informações fundiárias presentes nas fichas do Arquivo Aguirra.

Para análise desse acervo em metodologia seriada - visando obter desde os fragmentos pontuais de determinado registro de transação envolvendo a posse de determinado lote ou conjunto, para o agrupamento desses dados através do levantamento, a fim de constituir e entender a formação sócio espacial pelo tempo - foram para tanto pensados chaves de levantamento e trabalho que pudessem elencar informações que possibilitassem, a partir da documentação, base para o desenvolvimento da pesquisa e o entendimento do Bairro do Bexiga (Bela Vista).

De maneira sucinta, podemos relatar que o levantamento do Arquivo Aguirra buscou agrupar as informações e dados que pudessem demonstrar a trajetória de configuração do lote urbano, desde a primeira ocorrência de comercialização ou partição de terreno até sua consolidação espacial.

O processo de reunião dos dados pertinentes a cada lote, através dos registros cartoriais, era parte inicial de um esforço de entendimento do Bairro do Bexiga, tendo em vista que a reunião, ou seja a seriação, desses “perfis” individualizados, os lotes, permitia a percepção de padrões de ocupação, conformação, organização espacial, e mesmo nos dava indícios de características de utilização e “saídas” encontradas pelos proprietários diante das características mais específicas, como por exemplo a geografia do terreno ou a vizinhança com um curso d´água.

Essa abordagem seriada sobre a documentação possibilitou o estabelecimento de um corpus documental extenso sobre as informações dos cartórios paulistanos. Como apontado acima, o trabalho de levantamento documental destacou as informações e dados que permitissem a metodologia seriada a fim da construção (visualização) de um entendimento que se aproximasse de uma abordagem mais próxima de uma “totalidade”, ou em outra palavras, possibilitasse uma visão que abarcasse as múltiplas relações características da dinâmica do bairro do Bexiga.

Quanto às informações pertinentes “extraídas” do Arquivo Aguirra, diante desses preceitos metodológicos, destacamos, a título de referência, as seguintes: Mudanças de posse e transações comerciais (Registros de Compra e Venda; Registros de Hipoteca; Editais de Execução; Editais de Praça; Inventários; Permutas e Doações; Outras transações envolvendo alterações no registro de posse); valor da terra; loteamentos, mudanças do perfil/dimensão do lote (fragmentações, partições e agrupamentos de terrenos); ocupação e padrões; data do surgimento da construção; confrontações e panorama de uma “vizinhança”; abertura e alargamento de ruas, intervenções urbanas; descrições das configurações ambientais e de paisagem (Internas: Descrição de construções e cômodos, e externas: Pertinentes à geografia e hidrografia do terreno e do bairro).

Para além dessas informações específicas de determinado lote ou propriedade, que são as informações inerentes a cada uma das novecentas fichas cartoriais compiladas para o quadrante de ruas em estudo, foi a possibilidade da reunião da série documental que permitiu o entendimento do Bairro do Bexiga e a percepção dos apontamentos que seguem sobre sua formação, seus diferentes padrões de ocupação, seu dinamismo econômico, o desenvolvimento e a formação dos lotes e glebas, o arruamento e as preferências de terrenos, entre outras questões.

Por exemplo, a análise da série documental no tocante as informações do valor da terra, desde o loteamento da Chácara do Bexiga em 1878, até os anos 1920, permite a percepção da valorização da terra na região. Seja por lote, por rua, ou no conjunto do bairro, conseguimos traçar a linha dessa evolução, que em certa medida, se comparado com os valores de outros bairros da capital para o mesmo período, nos apontam o valor e as hierarquias do mercado imobiliário da cidade, e, sobretudo, a inserção do bairro neste mercado em diferentes períodos.

Mais importante parece ser, na documentação citada, a quase totalidade das referências aos proprietários, o que possibilita através destes dados, a construção do conhecimento sobre as redes e relações de socialização inerentes a vida coletiva do Bexiga. Podemos por essa documentação estabelecer, em grande medida, o panorama étnico do bairro, percebendo o verdadeiro peso da imigração, sobretudo de italianos, visualizando a total integração com demais grupos sociais e étnicos fortemente presentes no bairro: brasileiros, portugueses, negros, entre outros.

Outra fonte consultada foi o acervo de Obras Particulares do Arquivo Histórico Municipal Washington Luís, que compreende todos os requerimentos junto à Prefeitura para as obras realizadas na cidade de São Paulo. Cada requerimento indica o logradouro, nome do proprietário e/ou construtor, arquiteto, função da edificação, o tipo de serviço realizado e o parecer do técnico responsável, geralmente acompanhados de planta baixa e/ou fachada da edificação. Alguns ainda indicam os proprietários vizinhos ao lote em questão.

Foram levantadas as informações para 11 ruas, referentes ao perímetro do bairro definido para estudo. Os dados levantados foram catalogados em fichas, correspondendo cada requerimento a uma ficha, totalizando 1862 fichas desde o início das pesquisas há dois anos. Foram colocadas nas fichas as datas do requerimento, endereço do imóvel, nome do proprietário e/ou construtor, função do imóvel, tipo de requerimento, indicação se o mesmo foi aprovado ou não, bem como croquis das plantas e fachadas das edificações. Quando apareceram, também foram anotados o nome do arquiteto responsável, vizinhos de lote e dimensões do mesmo. Todas essas seriam informações indispensáveis para ajudar na localização posterior desses lotes na base cartográfica.

Em seguida, as fichas foram organizadas por endereço, em ordem crescente de numeração, e passamos a tentar localizar os lotes e edificações recorrentes nas fichas na base escolhida para o trabalho, o Mapa da cidade de São Paulo realizado pela empresa Sara Brasil, levantamento de 1930. Foram localizados 220 imóveis nos lotes configurados até 1930. Para alguns dos imóveis foram identificados mais de um requerimento, correspondendo a um mesmo endereço em momentos distintos, o que foi possível identificar graças às tabelas de mudança de numeração disponibilizadas pelo AHMWL. Essa diferença de numeração ao longo do período estudado foi uma das grandes dificuldades encontradas para a localização efetiva de um endereço, como no caso das Ruas Maria José e Manoel Dutra, que sofreram mudanças de numeração devido a prolongamentos das ruas.

A análise do conjunto da documentação fundiária permitiu também levantar a atuação de proprietários investidores imobiliários visando acumulo de capitais. É o caso, dentre tantos, de Francisco Sampaio Moreira, que comprador de três grandes áreas situadas na Rua Major Diogo pelo valor de 4000$000 réis, fez nos dez anos seguintes inúmeras pequenas partições que lhe permitiram ganho.

As áreas compradas por Francisco Sampaio Moreira na Rua Major Diogo, realizadas ainda ano de 1880, permitem perceber essa atuação. Pelas fichas do Arquivo Aguirra e do AHMWL, sabemos que este investidor realizou três transações, no qual foram adquiridos grandes lotes: de José Joaquim Martins, comprou uma área de 77 m por 77m, no valor de 800$000 réis; de Pedro Frederico Rolide, um lote menor com 22 m de frente, no valor de 200$000 réis; e por fim, a aquisição junto a Dona Eugênia Perreira Braga, viúva do loteador Antonio José Leite Braga, de um conjunto de quatro outras áreas de 77 m, 44m, 88m e outra sem referência de medida frontal, todas lindeiras ao fundo com o córrego do Bexiga, no valor de 2000$000 réis.

A série documental demonstra que passados dois anos, em 1882, Francisco Sampaio Moreira já obtém ganho de capital na Rua Major Diogo. Do terreno comprado do pioneiro italiano Pedro Frederico Rolli, com 22 m de frente, realizando uma partição meeira, negocia a venda de um lote com Jose de Mello e sua esposa Maria Angélica por 375$000 réis, sendo 75$000 réis a mais que o valor pago pelo dobro da terra vendida.

A formação deste lote, que em 1912 pertenceria ao inventário do italiano Rafael Briganti nos permite, pela percepção de processos parecidos de consolidação fundiária presentes em outros lotes do Bairro do Bexiga, em certa medida, entender o padrão do desenvolvimento da “forma urbana” desde o loteamento fundador pela Antonio José Leite Braga e Cia., em 1878, até a consolidação das dimensões em padrão urbano. Tal lote, que sabemos permanecer atualmente com 11 m de frente por 37 m de fundo, situado a Rua Major Diogo, nos aponta o panorama do caminho da terra na região, pelas diversas partições e desmembramentos, até sua consolidação.

A área pela qual se delineou o lote do italiano Rafael Briganti foi negociada pela primeira vez ainda pela empresa loteadora. No ano de 1878, a Antonio José Leite Braga e Cia. vendeu ao italiano Pedro Ferederico Rolli/Rolide, por 200$000 réis um terreno com 10 braças de frente (22 metros), limitado ao fundo com córrego do Anhangabaú que dividia essas terras dos quintais das propriedades da Rua Santo Amaro (atual Av. Brigadeiro Luiz Antonio), divididas pelas águas do córrego do Bexiga. Dois anos depois, o italiano Pedro Frederico Rolli decide comercializar este lote, pelos mesmos 200$000 réis, tendo por comprador Francisco Sampaio Moreira. Como dito acima, F. Sampaio Moreira no ano mesmo ano, com apenas dois meses passados, partindo ao meio o lote, revende uma das partes lhe possibilitando ganho de capital em cima do montante pago pelo lote sem a divisão. Do comprador Jose de Mello e esposa, a propriedade pouco ficará sob sua senhoria, já que em dezesseis de maio do ano seguinte o casal de brasileiros venderá finalmente para o calabrês R. Briganti, sem ganho monetário.

A leitura do Inventário de Raphael Briganti permite observar que os lotes da Rua Major Diogo de sua propriedade foram vendidos já edificados por valores entre 5 e 15 contos de réis, dependendo das dimensões do lote e padrão da edificação.

Como podemos notar, este lote não passou por grandes mudanças em sua dimensão até a aquisição por Rafael Briganti. Sabemos que apenas ocorreu uma partição na metragem frontal. De fato, desde o início do loteamento, como podemos ver nos anúncios da Antonio José Leite Braga e Cia, em “A Província de São Paulo”, a existência de um esforço para o loteamento em pequenas e médias dimensões, todavia como indica estes mesmos anúncios, não se estabeleciam um padrão de lote ou de ocupação, ainda pelo anúncio seria possível a aquisição, se de interesse, de propriedades com amplas dimensões, sem necessariamente aproximar-se do padrão urbano. Essa condição é percebida neste anúncio transcrito:

 

Terrenos do Bexiga.

Vendem-se magníficos terrenos às braças ou em grandes lotes, com pastos ou matas, a vontade do comprador. Não há nada a desejar nestes terrenos dentro da cidade, água corrente, em diversas fontes, lindos golpes de vista para as bonitas chácaras, ruas de 60 palmos de largura. Preços baratíssimos, desde 20$, 30$, 40$ até 50$000 a braça, com 30 braças e mais de fundo, conforme a localidade escolhida. A planta acha-se nas oficinas de Santo Antonio, no Bexiga, podendo ser examinado a qualquer hora, tanto a planta como os terrenos. Para tratar com proprietários na mesma oficina ou com E. Rangel Pestana, na Rua Imperatriz n. 44.

(A Província de São Paulo, 28/07/1878. )


Os anúncios em jornais nos demonstram que a própria empresa empreendedora do loteamento e arruamento do Bexiga, realizou vendas de áreas maiores que permitiam a coexistência desses diversos padrões de lote, e mais além vendia ao mesmo tempo pequenas, médias e grandes áreas:


“Bom emprego de capital”

Vende-se uma excelente chácara um dos melhores arrabaldes da cidade, tendo um lindo sobrado para residência, um imenso quintal com horta e árvores frutíferas e um grande pasto. Dista da cidade três ou quatro minutos tem bondes quase à porta. O quintal tem para mais de seiscentas braças de comprimento e em breve terá duas frentes, de modo a se poderem fazer casas nos fundos ou vender terrenos destacar esta ideia que é importante para a originalidade do loteamento. Vende só ou com mais três casinhas ao lado que dão bons aluguéis. Para tratar com o Dr. Paulo Egydio, em seu escritório de advocacia das 11 ás 2 horas da tarde, ao largo Municipal nº7 (antigo largo da cadeia), ou em sua residência no Morro do Chá, Rua Barão de Itapetininga.”


A venda desta anunciada “Chácara” efetivou se à José Joaquim Martins, na data de 02 de março de 1879, por valor a época de 4000$000 réis. Na realidade, a tal chácara tratava-se da comercialização da totalidade da área de uma das quadras oriundas do arruamento empreendido quando da abertura das ruas do Bexiga. A casa situada em seu interior, fazia parte da sede da Chácara do Bexiga, e talvez por isso o anúncio da venda enquanto “chácara”.

De qualquer forma, parece aqui importante relatar, que a nova senhoria de José Joaquim Martins, sobre as terras situadas entre as ruas São Domingos, Conselheiro Ramalho, Major Diogo e Manoel Dutra (antiga Rua Dr. Antonio Prado) deu prosseguimento às indicações feitas pela loteadora no anúncio, de que a área seria de bom rendimento para “a se poderem fazer casas nos fundos ou vender terrenos” e cobrar “bons aluguéis”. Foi o que fez nos anos seguintes José Joaquim Martins.

Realizando partições na quadra comprada, começando ainda no mesmo ano (1879), Martins realiza seguidos desmembramentos de pequenas e médias dimensões, para diversos proprietários, conseguindo reaver significativa parte do capital investido inicialmente. Seus compradores continuaram – como abaixo relatado - a fracionar lotes e diminuir o padrão de ocupação, porém mantendo uma convivência com os lotes de maiores dimensões.

Tentando aqui demonstrar com maior precisão esse processo de formação do lote urbano, através do entendimento do caminho da terra sob “mãos” de dois importantes proprietários de terras no Bexiga, que, como mostra ampla documentação, conseguiram acumular capital imobiliário, realizando entre tantas empreitadas no bairro, compras de partições da área de José Joaquim Martins, para seguintes loteamentos. Falamos novamente de Francisco Sampaio Moreira, e também do italiano Eusébio Gamba.

O que formava o conjunto urbano situado entre as ruas: Major Diogo; Conselheiro Ramalho; Manoel Dutra; e Quatorze de Julho era uma das partes que compunham a área comprada por José Joaquim Martins. A abertura da Rua 14 de Julho é significativo registro desse esforço de ganho de capital pela venda da terra.

Quando iniciou a partição de sua “chácara” J. J. Martins, escolheu o limite oposto a elevada Rua de São Domingos, nas áreas mais baixas do Bexiga, na esquina das ruas Manoel Dutra com Conselheiro Ramalho, para fracionar sua área e vender lotes. Passados sete meses da compra da área da companhia de Antonio José Leite Braga, Martins vende nessa esquina para o italiano Carlos Rossi um terreno com 44 metros de frente a Rua Conselheiro Ramalho e 77 metros para o fundo, pelo valor de 300$000 réis, essa área ficaria pouco tempo sobre posse de Rossi, dois meses passados, foi vendida ao italiano Eusébio Gamba. No ano seguinte, o mesmo Eusébio Gamba aumenta seus limites frontais, tendo por frente à Rua Conselheiro Ramalho, compra de J. Martins uma área de 32,5 metros de frente, pelos mesmos ditos de fundo.

Ao passo que vendia as terras desse quadrante situadas à Rua Cons. Ramalho, que como visto acabariam sob posse de Eusébio Gamba, José Joaquim Martins empreendia se da mesma forma no lado oposto no trecho da Rua Major Diogo, onde venderia os 77 metros opostos ao já referido Francisco Sampaio Moreira, em julho 1880. No limite fronteiriço estabelecido entre as terras de E. Gamba e Francisco S. Moreira para com as terras de José Joaquim Martins, abriu se a Rua 14 de Julho. Mais que uma forma de limitação dessa vizinhança, a abertura de rua permitia a ampliação de possibilidades de desmembramento dessas áreas e a venda de lotes menores para pequenos proprietários, em sua maioria italianos. Nesse trecho, como podemos ver, os loteamentos posteriores realizados por E. Gamba e Francisco Sampaio Moreira, tiveram por frente a Manoel Dutra por um lado, e a aberta Rua 14 de julho por outro. Do mesmo modo, J. Martins realizou desmembramentos de lotes no lado oposto da mesma rua.

Eusébio Gamba, ao que se sabe, como importante membro da comunidade italiana de São Paulo, da qual conseguiu ascensão social e econômica, entre elas o cargo de vice-presidente da "Societá Italiana de Beneficenza in San Paolo" - criada em 1878, com a finalidade de prestar assistência de saúde a imigrantes italianos, através de fundos arrecadados junto aos grupos empresariais bem sucedidos, de origem italiana, como os Crespi, Pignatari, Falchi, os Matarazzo, bem como o próprio Gamba, tendo por fim a construção do antigo Hospital do Hospital Humberto Primo, inaugurado em 14/8/1904, de autoria do arquiteto italiano Giulio Micheli – possuía, ao que indica a documentação fundiária vários lotes maiores comprados nos anos iniciais do loteamento do Bexiga, e que ocupou-se ainda de vender lotes menores para pequenos proprietários. Só na Rua Manoel Dutra, nas áreas que comprará de Carlos Rossi e de J. Joaquim Martins e, nos anos de 1879 e 1880 respectivamente, vendeu passados dezoito anos, nada menos que dez lotes, com medidas frontais pequenas de 5, 6, 7,5 metros, e médias com 10, 15 e 20 metros, todos tendo por fundo 26 metros, lindeiros com suas outra posses loteadas da Rua 14 de Julho.

Esse é outro aspecto peculiar e importantíssimo que o levantamento da série documental fundiária do Bexiga nos permitiu para o entendimento do processo de formação do bairro.

Tratamos da percepção, permitida por essa documentação, de que, desde o início do loteamento das terras da Chácara do Bexiga e por grande parte de seu processo de conformação (de área rural periférica à bairro densamente ocupado de caráter central a capital paulistana), e como podemos perceber nas dimensões dos lotes vendidos por E. Gamba, em 1898, na Rua Manoel Dutra (acima descritos), a importância da referência e fixação do valor comercial pelas dimensões (metragem) aferido pela dimensão frontal do lote.

A documentação fundiária em série, para grande maioria dos casos, bem como a análise dos padrões de loteamento ainda presentes no bairro, apontam lotes estreitos na dimensão frontal, porém extensos ao fundo. Muito desses lotes extensos ao fundo, principalmente os situados nas cercanias do Bexiga, se estendem até os cursos d´água que limitavam a antiga chácara do Bexiga. Essa característica é comum, desde o loteamento inicial, passando pelos desmembramentos posteriores que foram acima descritos, e mesmo nas transações ocorridas já na década de 1920, marcando ainda hoje o arranjo espacial do bairro. Essa condição já era uma possibilidade apontada pela companhia loteadora, a Antonio Leite Braga & Cia, ao conclamar que o comprador podia utilizar o seu vasto “quintal (...) de modo a se poderem fazer casas nos fundos ou vender terrenos destacar esta ideia que é importante para a originalidade do loteamento.”

São frequentes registros de lotes com medidas variadas de frente (5 m, 7 m, 11m, e em alguns casos medidas maiores, 15 m, 22 m) porém, na grande maioria dos casos, com fundos muito mais extensos de 44 m, 55m, 77m, 88m, de acordo com a amplitude da quadra. A documentação, a base cartográfica do SARA, bem como a visualização das aerofotografias atuais, nos permitem perceber a convivência em mesma quadra de um lote estreito frontalmente, com um mais amplo, todavia ambos partilhando de uma mesma amplitude ao fundo.

Apesar das grandes transformações em relação aos edifícios, nota-se uma grande permanência em relação às dimensões dos lotes. Após o loteamento do bairro, que ocorreu a partir de 1870, percebe-se um grande desmembramento no início do século XX, com alguns proprietários comprando grandes lotes e efetuando posteriores desmembramentos para vender, ou ainda construir casas para venda ou aluguel. Passado esse período de formação, observa-se uma tendência pela manutenção da configuração do lote.

Outro fato que merece destaque é a coexistência no Bexiga de diversas ocupações e classes sociais: operários, comerciantes, pequenos proprietários de manufaturas e fábricas, sendo imigrantes ou não, e mesmo uma classe média alta, fato que se pode comprovar ao analisarmos as dimensões dos lotes, assim como as plantas e fachadas das casas existentes no local à época, ou pela pesquisa sobre o proprietário e suas ocupações. Algumas dessas edificações ainda podem ser identificadas no bairro.

Analisando os requerimentos do AHMWL, nota-se também que grande parte das construções foi feita com recuos frontais, espaço previsto para uma expansão posterior, muitas vezes ocupado com um comércio, como no caso do nº 39 da Rua Treze de Maio, propriedade de Nicola Sacchi, cujo requerimento do ano de 1911 pedia aprovação para construção de casa recuada 4,5m da frente do lote. O mesmo padrão de construção aparece em vários outros endereços, como à Rua Manoel Dutra, nº 63 (1909); Rua Treze de Maio, nº 58 (1909), nº 91 (1909), nº 95 (1911); Rua Cons. Ramalho, nº 164A (1909) e 175 (1918); Rua Major Diogo, nº 49 (1913) e nº 100 (1912); Rua Maria José, nº 24 (1897) e Rua Fortaleza, nº 39 (1916).

É notável ainda, a presença de muitos armazéns no bairro, como nos números 50, 60, 88 e 116 da Rua Treze de Maio; 164A-164B e 175 da Rua Conselheiro Ramalho; números 61 e esquina com a Rua Treze de Maio da Rua Manoel Dutra; 12 e 49 da Rua Major Diogo e números 4 e 26-28 da Rua Maria José. Além disso, foram localizadas fábricas, como uma fábrica de chapéus à Rua Cons. Ramalho, nº 229 (Propriedade de Chiaverini, Magalhães e Cia em 1920); e outra de macarrão à Rua Major Diogo, nº 36 (Propriedade de Raphael Brigante em 1893), denotando o caráter misto do bairro, que permanece ainda hoje. Na documentação são comuns relatos de construção das edificações por partes. Encontramos em sua maioria, pedidos de aprovação para um núcleo composto por sala, quarto, cozinha e banheiro. Muitas vezes construiu-se outra habitação nos fundos do terreno ou aumentava-se o prédio inicial.

Observamos ainda, a permanência de muitas cocheiras no bairro após a década de 1920, da qual ainda registros estão presentes no bairro. Enquanto começavam a surgir pedidos para abertura de vias destinadas a entrada de veículos, ainda permaneciam muitas cocheiras nos fundos dos lotes, o que pôde ser percebido pela quantidade de requerimentos no período solicitando reconstrução, ou reforma de cocheiras existentes. A heterogeneidade do bairro ficou ainda mais explícita ao estudarmos a Rua Treze de Maio, em que foi possível observar a presença de uma classe social mais alta - que pode ser constatada pelo tipo das edificações e dimensões dos lotes - junto a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio e de uma classe social mais baixa, antes de atravessar essa avenida.

A análise da documentação sobre a formação urbana do bairro do Bexiga, aponta inúmeras questões interessantes. Ao que nos parece, as múltiplas convivências de padrões construtivos e dos lotes, a coexistência de usos e hierarquias sociais, os grandes fundos dos lotes pequenos na dimensão frontal, numa convivência e vizinhança com maiores propriedades, como a Casa da Yayá, parecem ser uma característica da ocupação do bairro.

Com base na documentação seriada sobreposta a base cartográfica, reafirma-se o aspecto de irregularidade do Bairro, ou seja, configurado como espaço de vivências múltiplas e de “saídas” e “escolhas” de ocupação e habitação diversas, convivendo e afirmando uma estrutura ambiental-urbana peculiar. Todavia, essas convivências e escolhas, “irregulares”, aos nossos olhos habituados com padrões organizados, tendem a espelhar-nos como soluções “irracionais” ou “desordenadas”. Esse entendimento não parece condizer com as soluções encontradas pelos moradores e construtores do Bexiga.

A documentação seriada nos indica que é preciso levar em conta todas as especificidades do processo formativo do bairro. Diante de um loteamento de 1868, diante das possibilidades da geografia e da hidrografia do terreno, do processo peculiar de loteamento, que com o decorrer do tempo foi conformando esse irregular “urbano”, diante das bagagens culturais e das práticas construtivas desses residentes – imigrantes ou não -, da existência de comunidades vizinhas anteriores ao loteamento, e mesmo da inicial condição de “arrabalde” da capital, quando de sua abertura, se faz necessária a reflexão: de até que ponto essas “irregularidades” não são soluções refletidas, possibilidades de ocupação encontradas por seus moradores, respostas aos seus diversos anseios sociais, econômicos, ou mesmo manifestações e representações de uma rede de socialização complexa e dinâmica.

A chave interpretativa e propagada da “ocupação irracional e desordenada” e da formação de bairros exclusivamente habitados por uma determinada classe social – defendida por diversos autores sobre o processo de formação da cidade de São Paulo7 – colocar referencia bibliografica sobre isto ja que é argumento com o qual estao contrapondo como resposta analítica das múltiplas convivências e das “saídas irregulares” encontradas não parece sustentar, no caso do Bairro Bexiga, um entendimento que considere as especificidades do bairro, diante de seu processo de construção através do tempo, e retira ou ignora a importância social de seus construtores.

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